Se tem uma coisa irritante que o avanço tecnológico e a inclusão digital trouxeram para os nossos tempos atuais foi, sem dúvida, a vulgarização do espaço público. Este, que deveria ser objeto de um comportamento mais contido por parte dos seus freqüentadores, está cada vez mais entregue a extroversões tão ridículas quanto ilimitadas. (A começar por esse blog, diria minha autocrítica.)
Celular
Por exemplo, o celular. O celular é um fenômeno social que hoje em dia faz de tudo: tira fotos, toca música, vídeos, roda softwares, funciona como GPS e até realiza ligações telefônicas se você quiser. As pessoas brandem seus celulares de R$ 1.000, R$ 1.500 e falam sem critérios no meio da rua, no ônibus, no metrô, em restaurantes, aeroportos, em filas de caixa... todas elas absortas em seus diálogos pegajosos de vida privada, arrastando todo mundo ao alcance de sua voz para dentro de suas vidinhas particulares.
Internet
Com a internet acontece algo bem similar. Na era da inclusão digital, a internet é um espaço público cada vez mais amplo, rápido e moderno, e está cada vez mais acessível às mais diversas camadas da população. As pessoas aproveitam os recursos oferecidos pela rede para os mais variados fins, e isso é ótimo, mas eu aposto que a prioridade n.º 1 da maioria delas é manter atualizado seu perfil pessoal na internet com as fotos da festa do último final de semana. E dê-lhe upload.
Aquele mesmo “também te amo” que ouvimos no ônibus, agora também aparece escrito aos montes em redes socais. A mensagem, naturalmente, é direcionada exclusivamente a uma determinada pessoa, porém, talvez por uma certa necessidade bisonha de afirmação, ela é propositadamente deixada disponível para todo mundo ler. Ou seja, troca-se a voz pela escrita, o celular pela página pessoal, mas a essência da banalidade continua a mesma.
Um sentimento tão nobre e belo como o amor não precisa ser publicado para ser verdadeiro. Não é como este texto aqui, que, para existir, precisa ser lido. Pra mim, a sensação destruidora de amar verdadeiramente alguém, seja a namorada (o), a mãe, o pai, o cachorro ou o irmão, é uma sensação tão única, nobre e pessoal que faço questão de não “gastá-la”, tornando-a pública. Apenas direciono-a exclusivamente a quem interessa.
PS: Jonathan Franzen inspirou-me com algumas de suas idéias neste 'post'.

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