sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Excesso de consciência

Muitas pessoas acreditam que sem utopias, ideais ou objetivos muito bem definidos, a vida perde o sentido e não merece ser vivida; afinal, ninguém existe à toa. Com base nisso, as pessoas definem previamente seus ideais / utopias e projetam a felicidade de suas vidas para viver em função deles.


Vou nascer, crescer, estudar, trabalhar, enriquecer, viajar, me apaixonar, casar, ter 2 filhos, comprar uma casa... e, depois de um "tempo", vou sentar na varanda de casa e ver meus netos brincando no pátio, sentindo orgulho da prole gerada, com aquela sensação de "missão" cumprida.


Por outro lado, há também a turma que não se preocupa muito com essas questões 'socialmente' (ou geneticamente?) impostas. Encaram a vida com a maior naturalidade. Vivem intensamente o presente, fazendo a maior quantidade de coisas no menor espaço de tempo possível, não se importando com o futuro. Acham que a vida que se tem agora é um presente divino, e temos mais é que aproveitar o momento para sermos felizes e agradecer a Deus por estarmos vivos. Não estão nem aí para tentar entender as injustiças e os paradoxos do universo.
Essas pessoas normalmente são pessoas de atitude, diretas, que não pensam muito e correm atrás do que acham que merecem e fazem impor suas vontades.

Então, ótimo! Todas essas pessoas devem ter uma idéia de felicidade muito bem definida em suas mentes.

Já eu não tenho esse tipo de vocação. Não consigo idealizar algum objetivo, alguma missão específica que me fora atribuída quando da minha chegada à existência. Pra mim, pensar dessa forma é uma ilusão e acaba por só aumentar o risco de fracasso na vida, pois podem ser criadas expectativas inatendíveis. E daí o tombo é maior, principalmente à medida que o tempo passa e vamos nos dando conta que nada daquilo que planejamos está acontecendo. Da mesma forma, também não consigo me inserir na cultura do "oba-oba", na cultura do "vamos esquecer tudo e ser felizes".
Essa visão, digamos, mais "carpe diem" da vida, apenas me conduz a uma espécie de "inércia", pois otimismo/alegria/efusão demais pra mim é sinônimo de ignorância; é pensar que o mundo é melhor do que parece.

Não acho que minha vida seja melhor ou pior por pensar desse jeito. Tampouco me acho mais ou menos feliz do que qualquer outra pessoa.

Veja bem, não é nem uma questão de "ego". É simplesmente o que acontece quando se pensa demais. E o problema de pensar demais é que isso traz consigo a incapacidade de se idelizar algum objetivo, idealizar alguma espécie de aspiração/motivação metafísica para a vida, seja ela em termos de planejamento a longo prazo ou apenas para o momento. É como se eu estivesse fadado ao ostracismo voluntário. E o senso comum nos diz que essa incapacidade pode muitas vezes se traduzir em doença, doença essa expressa sob a forma de: ceticismo, frieza, niilismo, melancolia, pessimismo etc. Aliás, eis aí um belo mercado para a literatura de auto-ajuda, que engorda cada vez mais às custas dos que se deixam contaminar por essas "doenças".

Pois bem. Só sei que enquanto o mundo gira, eu sigo humildemente o meu caminho por aqui; sem revoltas, sem angústias, sem aspirações, sem grandes projetos. Meu universo é definido em mim mesmo. E por mais limitado que ele seja, tenho a consciência de que sou livre e que posso sair dele a hora que eu quiser.

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