quinta-feira, 15 de julho de 2010

Romantismo em alta

Neste último final de semana resolvi fugir um pouco do cardápio rotineiro de filmes de terror/drama/ação e peguei dois romances na locadora. Vi novamente o filme “Amor sem Escalas” (Up in te Air) e também aluguei o filme “500 dias com ela” (500 days of Summer). Foi um, digo, dois murros no meu estômago.

Up in the Air

Ryan, o herói vivido por George Clooney no filme, é um sujeito moderno: solteiro, bem sucedido, sem filhos, sem domicílio, sem vínculos, sem pertences, sem ligações afetivas com nada. Vive apenas em função da carreira, morando em hotéis e viajando país afora pra demitir gente de empresas que não têm coragem de encarar o próprio funcionário para demiti-lo. Viaja assim como vive: leve e rápido, com a mala praticamente vazia, bem como exige a velocidade da vida moderna.

E é naturalmente nas alturas que o nosso herói gosta de ficar. Acumulando milhas e milhas, lá nas nuvens ele vive acima de qualquer preocupação mundana, livre de riscos emocionais, passando por cima de qualquer neurose que possa atingir os pobres seres humanos abaixo dele. Lá é o seu seu refúgio existencial, onde ele tenta compensar aquela inevitável solidão que habita ele e a maioria dos demais homens ‘modernos’.

Mas essa sua filosofia individualista não duraria muito. Em uma das escalas de seus vôos, num bar de hotel, ele conhece essa mulher (sempre elas...), o seu clone feminino, que literalmente o fará descer das nuvens e cair por terra. Eles se conhecem, se envolvem e, de repente, ele se apaixona (ela não). Ele sentimentaliza a experiência. E a partir daí começa a valorizar vínculos, afetividades, família, casamento, a adotar uma visão mais conservadora da vida. Ué, mas o que houve com aquele individualismo todo? Uma única mulher é capaz de destruir toda uma filosofia de vida?

500 days of Summer

Tom (Joseph Gordon-Levitt) é o nosso segundo herói do post. O filme é sobre as lembranças dele a respeito da história de amor vivida entre ele e Summer, a bela moça por quem ele se apaixona. A relação deles dura 500 dias. No transcorrer do filme, a gente vê, quase que didaticamente, tudo o que acontece numa relação de amor que termina em desamor. O dia em que se conheceram, as ansiedades, as expectativas, as descobertas, a ternura. Depois vem a rotina, o surgimento dos primeiros conflitos que começam a corroer a relação, as brigas e reconciliações, as brigas sem reconciliações, o adeus. Bem clichê mesmo. Bem real.

Diferentemente de Ryan, não podemos dizer que Tom seja um cara moderno. Pelo contrário, ele faz mais o tipo de bonzinho “conservador”: é sensível, tem família, amigos, vínculos afetivos e é rodeado de gente que gosta dele e de quem ele gosta. Leva uma vida ordinária, trabalhando diariamente numa empresa de confecção de cartões. Mulheres diriam que é homem "pra casar".

----

Pois bem, vimos que nossos dois heróis, o moderno descolado e o romântico conservador, sentiram na pele como é aquela angústia de ter o desejo pela mulher amada contrariado: uma sensação que mistura dor, raiva, desapontamento, vergonha e desespero. Coisa que só o tempo (ou outra mulher equivalente) cura.

Bem, e que conclusões tirar disso tudo? De minha parte, posso citar duas.

A primeira é que todo esse papo de “moderno” e “conservador” é pura balela. Não passam de rótulos de comportamento que as pessoas criam para montar uma imagem de si mesmas e em seguida se vender (ou se esconder) no mercado das relações humanas. O Fulano é um cara "descolado". O Beltrano é um cara "de família". Tsc, tsc. No fundo, os verdadeiros heróis são aquelas pessoas niveladas por baixo (no bom sentido): as pessoas simples, comuns, que seguem sobrevivendo estoicamente ao implacável cotidiano, sem apelar para rótulos ou modelos de comportamento.

A segunda, mais óbvia ainda, é que todos nós, homens, independente do "marketing", somos eternos reféns do desejo que sentimos pela mulher amada. E o pior é que elas sabem disso.

Não é uma questão de tornar o homem "vítima" da mulher. Tem a ver com o desejo, não com a pessoa. Quando nos apaixonamos, perdemos aquela integridade de antes e dividimo-nos ao meio; começamos a viver em função do desejo pela mulher amada. É uma doença. É horrível. É viciante. É muito bom.


Enfim, nunca fui crítico de cinema, longe disso, inclusive os meus filmes preferidos sempre têm Van Damme ou Charles Bronson no papel principal. De qualquer forma, os dois filmes acima são bem recomendáveis, principalmente para os pangarés de plantão.

Um comentário:

Juliana disse...

seria tããããoooo legal se tu ressuscitasse esse blog e continuasse escrevendo o que tu pensa sobre as coisas.. a leitora aqui, que já releu mil vezes os poucos registros disponibilizados, agradeceria imensamente.