Acordei de ressaca. O sol à pino lá fora já invadia meu quarto, trazendo um calor e claridade insuportáveis, que me impediam de continuar dormindo. Tomei o resto da água da garrafa que havia deixado ao lado da cama e saí me arrastando dos lençóis.
Abri a geladeira pra pensar um pouco: o que eu tenho que fazer hoje? A visão interna do eletrodoméstico, que me mostrava só uma garrafa de cerveja na porta, me levou à conclusão de que eu tinha que inevitavelmente ir ao supermercado. Fechei a geladeira. Bom, pelo menos já era um compromisso praquele dia. Ir ao super.
Decidi sair pra dar uma volta na rua, até porque o calor no meu apartamento estava praticamente me expulsando dali. Passei o bloqueador solar, coloquei um livro qualquer embaixo do braço e saí. Desci pelo elevador, atravessei o saguão do meu prédio, cumprimentei o porteiro e cheguei à rua.
Era uma tarde de sábado quente e ensolarada. Algumas pessoas ainda saíam de seus prédios em direção à praia – os homens carregando os guarda-sóis e isopores cheios de cerveja e as mulheres, por sua vez, ficavam com a tarefa de levar as sacolas e cadeiras de praia, sem falar nas crianças, que levavam de arrasto, puxando-as pela mão. Todos bem felizes indo em direção a mais um belo dia de sol, calor, mar e praia cheia.
Por simples falta do que fazer, resolvi seguir o fluxo e acompanhar o movimento até a orla da praia, que ficava a três quadras adiante. Cheguei na esquina e cruzei a rua. Fiquei parado ali mesmo no calçadão, só contemplando. Ahh, a praia! Mas que lugar formidável para a reunião das diversas camadas sociais da população. Ali todos são iguais, independente da cor, sexo, idade, crença, classe social ou preferência sexual. Não há distinções. Homens jogando futevôlei, os casais jogando frescobol, as crianças se enterrando na areia, os adultos tentando se afogar mar adentro (testando a atenção dos salva-vidas), jovens desenvolvendo câncer de pele enquanto tomam banho de sol e os ambulantes quase desmaiando de tanto peso que carregam naqueles isopores. Enfim, um monte de gente carbonizando na areia sob o sol quente daquela tarde. Algumas pessoas preferiam assistir a esse espetáculo sentadas nos quiosques ao longo do calçadão, bebendo cerveja ou água de coco, e tinha ainda os ciclistas, que passavam tentando atropelar os pedestres que ficavam caminhando por ali. Praia! Momento ideal também para os marmanjos de classe média-alta exibirem as tatuagens em seus corpos depilados e esculturais, fruto de horas e horas na academia durante a semana. Sim, porque o único objetivo de se fazer academia é desfilar na praia nos finais de semana.
Que bom. Pelo menos nessas horas a gente nota que a praia consegue trazer paz e alegria pra muita gente. Após ter visto o suficiente, senti que já era hora de eu me abster daquele lugar. Cruzei novamente a rua e voltei aquelas três quadras de antes, chegando de novo na esquina da minha rua. Dessa vez dobrei à esquerda e continuei caminhando, seguindo em direção à zona sul, sem saber muito bem para onde estava indo.
Caminhei cerca de meia hora até chegar a um pequeno parque arborizado, que ficava a algumas quadras longe da agitação da praia e do pânico dos camelôs. Me joguei embaixo de uma árvore e fiquei ali, na grama, na sombra, matando tempo, lendo a tralha que havia trazido embaixo do braço. Não tinha muita gente no parque. A maioria eram pessoas idosas, que distribuíam comida para as pombas ou então jogavam dominó naquelas mesas de concreto. Passavam por ali também pessoas com ares de intelectual, que andavam normalmente em duplas, conversando entre si e por vezes comentando algo sobre a paisagem. E tinha também as mães solteiras, algumas empurrando o carrinho do bebê e outras só passeando com seus filhos pequenos, aproveitando a pracinha que tinha logo ali mais adiante, ainda dentro do parque.
Começou a bater a fome e lembrei que não comia nada desde aquela porção de batata-frita com queijo da noite anterior. Argh. Saí do parque e avistei uma lanchonete alguns metros adiante, do outro lado da rua. Sentei no balcão e pedi um xis salada com ovo e um suco de melancia de meio litro. Trii bom. Enquanto comia, observava as gurias polpudas de coxa de fora passando na calçada, só faltando rebolar. A maioria era mulata e tinha cintura de menos e gordura de mais, mas havia exceções. Algumas passavam e olhavam pra mim, sorrindo rapidamente. Quando terminei meu almoço já passava do meio da tarde.
Resolvi então retomar o rumo de volta pra casa, já que era a única coisa a fazer mesmo. A alguns metros adiante, reconheci uma pessoa vindo pela calçada na minha direção. Era o Cristian, amigo/conhecido que estava bebendo na mesma mesa que eu e o resto do pessoal na noite anterior. "Mas que mundinho pequeno esse, hein!", ele disse. "É, hehe", respondi. E passou.
Após caminhar mais um pouco, lembrei-me do meu compromisso do dia: supermercado! Cheguei lá, peguei o carrinho e fui direto pra seção de bebidas. Devidamente reabastecido com cerveja, segui com o carrinho para as seções secundárias, como laticínios, congelados, higiene pessoal, etc. A fila do caixa dessa vez não estava muito grande, de modo que não tive que esperar muito pra passar com as compras. A moça do caixa me olhou e sorriu. "Boa tarde!", disse. "Boa!", respondi. Simpática ela. Não são todas assim. Paguei, peguei as sacolas e saí.
Final de tarde e, de repente, já estou de volta ao meu apartamento. Guardei as compras em seus devidos lugares e, com a geladeira reabastecida, peguei aquela única cerveja gelada que estava ali me esperando desde a hora que acordei. Abri-a e me atirei no sofá. Respirei fundo. Silêncio. Só o som do ventilador de teto sobre minha cabeça e alguns carros buzinando na rua, 10 andares lá embaixo. Lembrei que a noite estava apenas começando. Indefinições? Dúvidas? Inseguranças? Tomei mais um gole da cerveja. Olhei para cima, recostei a cabeça no encosto do sofá e fiquei observando o ventilador girar. E fiquei ali, um bom tempo, imóvel, pensando. Pensei, pensei e tomei mais um gole. Resolvi parar de pensar, larguei a cerveja e procurei direcionar meus esforços para me concentrar em absolutamente NADA.

Um comentário:
P.S.: trata-se de uma pseudo-ficção.
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